sábado, 10 de dezembro de 2016

Origem Família Fugulin

Esse é um texto da Fernada de Castro Carnevalli, neta do Ernesto Fugulin, filho do Antonio Fugulin, mencionado neste texto. Eram quatro irmãos: Guiuseppe(José), Antonio, Luigi(Luis, meu avô) e Giovanni (João). Os pais deles eram, Antonio Fogolin e Maria Polesello Fogolin, todos de Udnei, Itália. Aqui os nomes deles se alteraram, na minha família ficou sendo Fugulin. Quem for nosso parente, por favor, deixe comentário que vamos completando a árvore genealógica. Obrigada. 


O silêncio de antes

Talvez a família Fugulin tenha chegado a São Paulo por engano. Diz-se que o destino final do navio, destino esperado, terra prometida a estes Fugulins que vinham da província de Udine, em Vêneto, era Buenos Aires.  Não se sabe se esta família havia sequer pronunciado a palavra Brasil antes de aqui atracar. E então, ao chegar ao porto de Santos, talvez o pequeno Antônio, de olhos cristalinos já cansados de refletirem o mar, vislumbrava em terra firme alguma firmeza para os passos com que desenharia o seu crescer. Talvez toda a famiília, numa necessidade que nasce da aflição de quem não tem terra, de quem precisa desconstruir o seu pertencer, tivesse compactuado em silêncio que ali mesmo desceriam, que não haveria Buenos Aires para além dali. Para eles não haveria.
Subiram a serra de Santos e aprenderam novamente a acolher as coisas do mundo, fazendo-as suas, no bairro da Bela Vista. Mas não estavam sós. Muitos outros, imigrantes escorregados oceano abaixo do extremo norte da Itália, em sua maioria, lhes faziam vizinhança. Há uma ideia que persevera hoje na família Fugulin de que estes italianos nórdicos não servem para dar voz à todo esse palavreado que circula aqui e acolá e toma o italiano como um ser espalhafatoso, a falar em gritos, a dramatizar no gesto. Ao contrário, havia silêncio no bairro da Bela Vista e havia silêncio na casa dos Fugulin.
A ausência de palavras, fossem elas palavras dadas, trocadas ou pedidas, tornaria-se um hábito e se desdobraria por gerações desta família, vestindo suas intimidades com alguma austeridade. Não era que um não coubesse no coração do outro, ou que não soubessem exercer o sentido de família que a religião lhes pedia. Para alguns dos Fugulins as palavras de afeto, afago e doçura simplesmente não lhes entravam à boca. Como se essas palavras, esses modos de se aproximar do outro, já nascessem banhados em alguma calda que constrange e por isso mesmo estavam proibidos de nascer.
Assim, aprendendo a retirar-se para dentro de si e ali ficar, Antônio começou a imaginar como faria de sua vida uma vida própria. Gostaria de erguer uma família, fazendo-a sólida e rígida com o cimento da tradição; gostaria de alicerçar-se em um solo de trabalho e honra e que, ao voltar do trabalho, pudesse apoiar os cotovelos sobre mesas de fartura; gostaria de poder construir pequenos ritos e torná-los tão seus como a marca deixada no travesseiro quando se levanta (seria seu, mais tarde, o guardanapo pendurado ao pescoço no jantar, a espera pela mesma sopa, do mesmo horário, de todos os dias, o ruído da colher à boca, fazendo brotar o riso nos netos). Gostaria de poder construir.
Pensava com fascínio na arte de  inventar casas, palacetes, igrejas, que delineassem o amplo horizonte da cidade de então. Ou apenas acolhia o ofício de arquiteto-construtor como quem recebe, por herança, um relógio antigo, resistente às gerações da família. Talvez nunca tivesse desconfiado de que tudo aquilo que pensava estar autenticamente desejando para si fosse um grande relógio antigo e que a prova disso era o fato de que a alguns dos seus, irmãos, primos e tios, lhes houvessem despertado o mesmo ofício. Entre os Fugulins, o construir se consumava na parceria familiar. Já ali, no sol à sol das obras, misturado entre os peões, como era de costume lhe achar, não pensaria nisso.
Seja como for, havia em Antônio uma inegável habilidade de botar o olhar no espaço e esperar até ele sorrir em alguma forma, em estruturas delimitantes da circulação e da rotina dos seres. Da ponta do lápis à última telha via-se sua presença marcada, a reiterar a fama que ia se expondo à luz. E como homem afamado, o Antônio podia trocar seu trabalho por importantes quantias de dinheiro, que iam lhe dando o posto daquele que fez fortuna na família. Aliás, para eles, os Fugulins da época, a palavra família sempre esteve de algum modo atrelado ao hábito de repartir dinheiro, uns a taparem os buracos nos orçamentos dos outros, uns a encherem os olhos dos filhos dos outros com recorrentes envelopes oferecidos nas visitas dominicais. Talvez fosse o dinheiro e a necessidade aguçada de estabilizar a vida material um jeito que encontraram para preencher o espaço deixado pela economia dos afetos. O fato é que Antônio, construindo, viu curvar-se diante de si a admiração de muitos outros Fugulins, fazendo-se um alguém a quem se podiam referenciar. Certamente, não era ele um homem desses que se sente à margem do tempo em que vive.
O casamento e a viuvez conheceu duas vezes, com Afonsina e com Lúcia. Junto às duas ele haveria de ver a visita amarga do câncer entrar-lhes à vida. Antes disso, com Afonsina, deixaria cinco ramos de descendência: Paschoalina, Armando, Maria Ana, Américo Lélio e Ernesto Otávio. Às mulheres, que tinham a disposição de viver toda induzida para o casamento, não lhes foi dada essa opção, mas, entre os homens, não houve qualquer tipo de interesse explícito em fazer das construções o seu espaço do trabalhar. Na verdade, eis aí uma encruzilhada na história Fugulin. Antônio derramou sobre os filhos homens a expectativa daquilo que não conseguiu para si: queria-os letrados. E para ele, dado como se deu o acontecer da profissão na sua vida, ser letrado e ser construtor não eram duas farinhas do mesmo saco. Assim, fazendo jus à uma coerência que acreditavam precisar existir entre o querer dos pais e o querer dos filhos, Armando e Lélio foram letrar-se em contabilidade. Ernesto, o caçula, se ocupou de decepcionar o pai e nos estudos não vingou. Concluiu com sufoco e muita palmatória o ginásio e em outros rumos se embrenhou. Ainda assim, fez-se sujeito honesto, imbricado nas vendas, de uma honestidade capaz de resumir a mais amorosa lembrança que suas filhas teriam dele, anos mais tarde.
Junto a este Ernesto que a vida me fez confirmar nos Fugulins a economia dos afetos, compensada numa meticulosa estabilidade do mundo material. Ernesto era meu avô. É por ele que chegou a mim o corpo presente de toda essa história. Repetidas vezes ele me ofereceu o olhar sisudo, a boca módica na palavra (e transbordante nos apetites), os nervos apertados contra a pele, expulsando uma rispidez que a proximidade com o outro ocasionava. Nunca queria ninguém muito perto, nunca queria ninguém muito longe, queria tudo no lugar. Fazia-se evidente a soberania orgulhosa dada ao dinheiro, mesmo que modesto, dentro dos embaralhos de sua rotina familiar. Pagar as contas em dia e listar com antecipação o preço de cada um dos itens que compraria no supermercado não era apenas um desejo de ser prático, era o necessário para assegurar uma realidade fixa. 
Foi nele que se viu algum rastro, ainda que tímido, de Antônio construtor. À parte de seu notado interesse por estruturas, encanamentos e fiações, um delicado modo de construir teve lugar nas mãos do Ernesto: eram cadeirinhas de balanço em miniatura, feitas com pregadores de roupa cuidadosamente desmontados e pintados, tão credíveis que faziam a gente querer ser daquele tamanho só pra poder sentar nelas. Soava quase contraditório que um Fugulin tão típico pudesse manifestar naquela pequenez de objeto tamanha delicadeza. Parecia-me ali estar todo seu amor ao mundo.
E foi na contradição que meu avô Ernesto fechou o ciclo de sua vida. Depois de tanto desajuste, de tanto sentir-se pela metade, de olhar os próprios pés e chamá-los pés de pato, de aventurar-se solitário em viagens a outras cidades e voltar carcomido por uma aflição subida do estar só, algo novo lhe aconteceu na velhice. Com o corpo já bem deteriorado, os rins quase sem funcionar, o sangue resolveu correr-lhe de tal forma que lhe fazia brotar flores à língua. Seu corpo relaxou, procurou abraços, as palavras vieram. Ele fez-se um inteiro. Estava tão doce que seria capaz de pedir a minha avó que cantasse para ele ao ouvido. A mesma vó Lalá a quem ele pisotiara o canto e o piano, muitos anos antes, como num segundo pacto firmado ao casamento.
Quando meu avô partiu ficamos vazios e cheios. Parece que ele se foi como aquele grão de tremoço, que quando comemos apertamos e fica a casca, vai o grão.  Meu avô foi inteiro, foi em grão, deixou só a casca. 
Muito da história Fugulin, das construções do Antônio, da sensação causada por uma São Paulo que iluminava-se aos poucos, lampião a lampião, das fugas para o porão da casa da Bela vista, sob o tiro dos canhões da Revolução de 30, se esvaneceu junto à ele, o último dos cinco irmãos. Muito desta história morreu com Ernesto. Aos que ficam, o debruçar-se sobre ela é tentar saudar uma dívida ancestral de pôr palavra onde antes não pôde haver. Hoje, os Fugulins não são mais só silêncios.


10 comentários:

Jose Fugulin disse...

Tenho algumas informações sobre meu Avô (Fogolin Giuseppe)pai do meu pai Ulysses Fugulin (grafia correta com "Y").

Não estão aqui comigo, mas te envio nesta semana ...

Abçs

Unknown disse...

Minha bisavó Helena Fugulin mãe de minha avó. Tenho a certidão de Nascimento dela

Unknown disse...

Olá! Sou neta de Helena Cecília Fugulin. Que é filha de João Fugulin Sobrinho, neta de Paschoalina Fugulin e José Fugulin. Gostaria muito de entrar em contato com você. Deixarei o meu e-mail para preenchermos esta árvore genealógica. Beijos!
linesntn@gmail.com

Unknown disse...

Oi sou neta do Armando Fugulin, conheci o tio Lélio ele nao teve filhos.mas o tio Ernesto e suas filhas eu conheci.
Meu pai e Walter Sérgio Fugulin e meus tio Luiz Carlos Calichio Fugulin e Rubens Cezar Calicho Fugulin( em memoria).
Moramos em São Paulo zona sul.
Me chama no email.
Amei a história.
No meu face tenho vários Fugulin de todos os lugares do Brasil

Vanessa Fugolin Argentin disse...

Olá,eu sou neta do Pedro José Fugolin, filho do Antonio Fugolin que era filho de Gio Batta Fogolin e Maria Zanon. Tenho todos os documentos mas acho que o seu Antonio é irmão do meu Gio Batta. Vc sabe o ano de nascimento dele?

Anônimo disse...

Ola, minha esposa e Tri Neta de Fillipo Fogolin e Lucia Piva, este filho de Giovani Battista Fogolin e Maria Zanon. Na familia dela o sobrenome ficou Fugolim e as vezes Fugolin.

EnricoP disse...

Ola, o nome da cidade de Italia seria Udine e nao è do Veneto .. a regiao è chamada "Friuli Venezia Giulia"...

Sabrina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sabrina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sabrina disse...

Pelo menos Angela Fugulin que era minha tataravo, nasceu em Sesto al Reghena, provincia de Pordenone (hoje) região de Friuli Venezia Giulia, eu moro aqui em Pordenone se alguém precisar de algo estarei a disposição.