O silêncio de antes
Talvez
a família Fugulin tenha chegado a São Paulo por engano. Diz-se que o destino
final do navio, destino esperado, terra prometida a estes Fugulins que vinham
da província de Udine, em Vêneto, era Buenos Aires. Não se sabe se esta família havia sequer
pronunciado a palavra Brasil antes de aqui atracar. E então, ao chegar ao porto
de Santos, talvez o pequeno Antônio, de olhos cristalinos já cansados de
refletirem o mar, vislumbrava em terra firme alguma firmeza para os passos com que
desenharia o seu crescer. Talvez toda a famiília, numa necessidade que nasce da
aflição de quem não tem terra, de quem precisa desconstruir o seu pertencer,
tivesse compactuado em silêncio que ali mesmo desceriam, que não haveria Buenos
Aires para além dali. Para eles não haveria.
Subiram
a serra de Santos e aprenderam novamente a acolher as coisas do mundo,
fazendo-as suas, no bairro da Bela Vista. Mas não estavam sós. Muitos outros,
imigrantes escorregados oceano abaixo do extremo norte da Itália, em sua
maioria, lhes faziam vizinhança. Há uma ideia que persevera hoje na família
Fugulin de que estes italianos nórdicos não servem para dar voz à todo esse
palavreado que circula aqui e acolá e toma o italiano como um ser
espalhafatoso, a falar em gritos, a dramatizar no gesto. Ao contrário, havia
silêncio no bairro da Bela Vista e havia silêncio na casa dos Fugulin.
A
ausência de palavras, fossem elas palavras dadas, trocadas ou pedidas,
tornaria-se um hábito e se desdobraria por gerações desta família, vestindo
suas intimidades com alguma austeridade. Não era que um não coubesse no coração
do outro, ou que não soubessem exercer o sentido de família que a religião lhes
pedia. Para alguns dos Fugulins as palavras de afeto, afago e doçura
simplesmente não lhes entravam à boca. Como se essas palavras, esses modos de
se aproximar do outro, já nascessem banhados em alguma calda que constrange e
por isso mesmo estavam proibidos de nascer.
Assim,
aprendendo a retirar-se para dentro de si e ali ficar, Antônio começou a
imaginar como faria de sua vida uma vida própria. Gostaria de erguer uma
família, fazendo-a sólida e rígida com o cimento da tradição; gostaria de
alicerçar-se em um solo de trabalho e honra e que, ao voltar do trabalho,
pudesse apoiar os cotovelos sobre mesas de fartura; gostaria de poder construir
pequenos ritos e torná-los tão seus como a marca deixada no travesseiro quando
se levanta (seria seu, mais tarde, o guardanapo pendurado ao pescoço no jantar,
a espera pela mesma sopa, do mesmo horário, de todos os dias, o ruído da colher
à boca, fazendo brotar o riso nos netos). Gostaria de poder construir.
Pensava
com fascínio na arte de inventar casas,
palacetes, igrejas, que delineassem o amplo horizonte da cidade de então. Ou
apenas acolhia o ofício de arquiteto-construtor como quem recebe, por herança,
um relógio antigo, resistente às gerações da família. Talvez nunca tivesse
desconfiado de que tudo aquilo que pensava estar autenticamente desejando para
si fosse um grande relógio antigo e que a prova disso era o fato de que a
alguns dos seus, irmãos, primos e tios, lhes houvessem despertado o mesmo
ofício. Entre os Fugulins, o construir se consumava na parceria familiar. Já
ali, no sol à sol das obras, misturado entre os peões, como era de costume lhe
achar, não pensaria nisso.
Seja
como for, havia em Antônio uma inegável habilidade de botar o olhar no espaço e
esperar até ele sorrir em alguma forma, em estruturas delimitantes da
circulação e da rotina dos seres. Da ponta do
lápis à última telha via-se sua presença marcada, a reiterar a fama que ia se
expondo à luz. E como homem afamado, o Antônio podia trocar seu trabalho por
importantes quantias de dinheiro, que iam lhe dando o posto daquele que fez
fortuna na família. Aliás, para eles, os Fugulins da época, a palavra família
sempre esteve de algum modo atrelado ao hábito de repartir dinheiro, uns a
taparem os buracos nos orçamentos dos outros, uns a encherem os olhos dos
filhos dos outros com recorrentes envelopes oferecidos nas visitas dominicais.
Talvez fosse o dinheiro e a necessidade aguçada de estabilizar a vida material
um jeito que encontraram para preencher o espaço deixado pela economia dos
afetos. O fato é que Antônio, construindo, viu curvar-se diante de si a
admiração de muitos outros Fugulins, fazendo-se um alguém a quem se podiam
referenciar. Certamente, não era ele um homem desses que se sente à margem do
tempo em que vive.
O
casamento e a viuvez conheceu duas vezes, com Afonsina e com Lúcia. Junto às
duas ele haveria de ver a visita amarga do câncer entrar-lhes à vida. Antes
disso, com Afonsina, deixaria cinco ramos de descendência: Paschoalina,
Armando, Maria Ana, Américo Lélio e Ernesto Otávio. Às mulheres, que tinham a
disposição de viver toda induzida para o casamento, não lhes foi dada essa
opção, mas, entre os homens, não houve qualquer tipo de interesse explícito em
fazer das construções o seu espaço do trabalhar. Na verdade, eis aí uma
encruzilhada na história Fugulin. Antônio derramou sobre os filhos homens a
expectativa daquilo que não conseguiu para si: queria-os letrados. E para ele,
dado como se deu o acontecer da profissão na sua vida, ser letrado e ser
construtor não eram duas farinhas do mesmo saco. Assim, fazendo jus à uma
coerência que acreditavam precisar existir entre o querer dos pais e o querer
dos filhos, Armando e Lélio foram letrar-se em contabilidade. Ernesto, o
caçula, se ocupou de decepcionar o pai e nos estudos não vingou. Concluiu com
sufoco e muita palmatória o ginásio e em outros rumos se embrenhou. Ainda
assim, fez-se sujeito honesto, imbricado nas vendas, de uma honestidade capaz
de resumir a mais amorosa lembrança que suas filhas teriam dele, anos mais
tarde.
Junto
a este Ernesto que a vida me fez confirmar nos Fugulins a economia dos afetos, compensada
numa meticulosa estabilidade do mundo material. Ernesto era meu avô. É por ele
que chegou a mim o corpo presente de toda essa história. Repetidas vezes ele me
ofereceu o olhar sisudo, a boca módica na palavra (e transbordante nos
apetites), os nervos apertados contra a pele, expulsando uma rispidez que a
proximidade com o outro ocasionava. Nunca queria ninguém muito perto, nunca
queria ninguém muito longe, queria tudo no lugar. Fazia-se evidente a soberania
orgulhosa dada ao dinheiro, mesmo que modesto, dentro dos embaralhos de sua
rotina familiar. Pagar as contas em dia e listar com antecipação o preço de
cada um dos itens que compraria no supermercado não era apenas um desejo de ser
prático, era o necessário para assegurar uma realidade fixa.
Foi
nele que se viu algum rastro, ainda que tímido, de Antônio construtor. À parte
de seu notado interesse por estruturas, encanamentos e fiações, um delicado
modo de construir teve lugar nas mãos do Ernesto: eram cadeirinhas de balanço
em miniatura, feitas com pregadores de roupa cuidadosamente desmontados e
pintados, tão credíveis que faziam a gente querer ser daquele tamanho só pra
poder sentar nelas. Soava quase contraditório que um Fugulin tão típico pudesse
manifestar naquela pequenez de objeto tamanha delicadeza. Parecia-me ali estar
todo seu amor ao mundo.
E
foi na contradição que meu avô Ernesto fechou o ciclo de sua vida. Depois de
tanto desajuste, de tanto sentir-se pela metade, de olhar os próprios pés e
chamá-los pés de pato, de aventurar-se solitário em viagens a outras cidades e
voltar carcomido por uma aflição subida do estar só, algo novo lhe aconteceu na
velhice. Com o corpo já bem deteriorado, os rins quase sem funcionar, o sangue
resolveu correr-lhe de tal forma que lhe fazia brotar flores à língua. Seu corpo
relaxou, procurou abraços, as palavras vieram. Ele fez-se um inteiro. Estava
tão doce que seria capaz de pedir a minha avó que cantasse para ele ao ouvido.
A mesma vó Lalá a quem ele pisotiara o canto e o piano, muitos anos antes,
como num segundo pacto firmado ao casamento.
Quando
meu avô partiu ficamos vazios e cheios. Parece que ele se foi como aquele grão
de tremoço, que quando comemos apertamos e fica a casca, vai o grão. Meu
avô foi inteiro, foi em grão, deixou só a casca.
Muito
da história Fugulin, das construções do Antônio, da sensação causada por uma
São Paulo que iluminava-se aos poucos, lampião a lampião, das fugas para o
porão da casa da Bela vista, sob o tiro dos canhões da Revolução de 30, se
esvaneceu junto à ele, o último dos cinco irmãos. Muito desta história morreu
com Ernesto. Aos que ficam, o debruçar-se sobre ela é tentar saudar uma dívida
ancestral de pôr palavra onde antes não pôde haver. Hoje, os Fugulins não são
mais só silêncios.
10 comentários:
Tenho algumas informações sobre meu Avô (Fogolin Giuseppe)pai do meu pai Ulysses Fugulin (grafia correta com "Y").
Não estão aqui comigo, mas te envio nesta semana ...
Abçs
Minha bisavó Helena Fugulin mãe de minha avó. Tenho a certidão de Nascimento dela
Olá! Sou neta de Helena Cecília Fugulin. Que é filha de João Fugulin Sobrinho, neta de Paschoalina Fugulin e José Fugulin. Gostaria muito de entrar em contato com você. Deixarei o meu e-mail para preenchermos esta árvore genealógica. Beijos!
linesntn@gmail.com
Oi sou neta do Armando Fugulin, conheci o tio Lélio ele nao teve filhos.mas o tio Ernesto e suas filhas eu conheci.
Meu pai e Walter Sérgio Fugulin e meus tio Luiz Carlos Calichio Fugulin e Rubens Cezar Calicho Fugulin( em memoria).
Moramos em São Paulo zona sul.
Me chama no email.
Amei a história.
No meu face tenho vários Fugulin de todos os lugares do Brasil
Olá,eu sou neta do Pedro José Fugolin, filho do Antonio Fugolin que era filho de Gio Batta Fogolin e Maria Zanon. Tenho todos os documentos mas acho que o seu Antonio é irmão do meu Gio Batta. Vc sabe o ano de nascimento dele?
Ola, minha esposa e Tri Neta de Fillipo Fogolin e Lucia Piva, este filho de Giovani Battista Fogolin e Maria Zanon. Na familia dela o sobrenome ficou Fugolim e as vezes Fugolin.
Ola, o nome da cidade de Italia seria Udine e nao è do Veneto .. a regiao è chamada "Friuli Venezia Giulia"...
Pelo menos Angela Fugulin que era minha tataravo, nasceu em Sesto al Reghena, provincia de Pordenone (hoje) região de Friuli Venezia Giulia, eu moro aqui em Pordenone se alguém precisar de algo estarei a disposição.
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